El Niño ameaça eficiência empresarial e exige blindagem financeira
Fenômeno climático eleva incertezas econômicas; especialista explica como antecipar riscos de abastecimento e crédito por meio da inteligência operacional
O El Niño já está em formação no Oceano Pacífico e deve se intensificar nos próximos meses, de acordo com o boletim divulgado este mês pelo Climate Prediction Center (CPC), órgão vinculado à NOAA. A perspectiva tem aumentado a preocupação em diversos setores, principalmente o econômico
Isso porque o fenômeno climático é um dos fatores que podem alterar preços, produções, juros, câmbio e até mesmo decisões de investimentos. O Banco Central já incorporou o risco climático às projeções econômicas, estimando impacto adicional entre 0,3 e 0,4 ponto percentual na inflação nos próximos dois anos, impulsionado principalmente pelos preços de alimentos, energia e frete.
No entanto, o El Niño não afeta apenas as safras, a geração de energia ou a logística. Ele também pressiona as operações por meio de impactos sobre fornecedores, contratos, prazos, documentos e pagamentos. O motivo é simples: a quebra de produção pode reduzir o volume entregue, e um gargalo logístico pode alterar o prazo de faturamento. Além disso, a pressão sobre o caixa de um fornecedor pode se manifestar inicialmente como atraso na documentação ou mudanças no padrão de emissão de notas fiscais.
Para Daniel Paschino, CFO da Qive, o principal desafio está em identificar os primeiros sinais de pressão antes que eles se transformem em impactos financeiros. "Os efeitos de eventos climáticos aparecem primeiro na operação. Uma quebra de produção reduz entregas, gargalos logísticos alteram prazos de faturamento e fornecedores pressionados costumam apresentar atrasos na documentação ou mudanças no padrão de emissão de notas fiscais. Quando esses reflexos chegam ao caixa, a empresa já perdeu parte importante da capacidade de reação", afirma.
Esse entendimento vai na mesma direção da análise “Sustainability Insights: El Niño 2026: Operational Headwind Or Credit Catalyst?”, da S&P Global, em que diz que eventos climáticos extremos tendem a impactar primeiro a operação das empresas por meio de interrupções produtivas, aumento de custos, redução do EBITDA e da geração de caixa, antes de se traduzirem em deterioração da qualidade de crédito ou em ações de rating. Isso explica por que os efeitos operacionais costumam anteceder os impactos sobre o risco de crédito.
Para o executivo, empresas que mantêm informações distribuídas entre diferentes sistemas ou processos manuais tendem a responder mais lentamente a essas mudanças. "O financeiro precisa olhar para o fluxo de contas a pagar não apenas como uma rotina de liquidação, mas como uma importante fonte de inteligência operacional", diz.
Na avaliação de Paschino, indicadores como queda no volume de notas fiscais emitidas por fornecedores estratégicos, aumento de divergências documentais, recorrência de documentos incompletos ou atrasos na conciliação podem antecipar riscos de abastecimento, pressão sobre margens e até rupturas contratuais.
Para transformar esses sinais em decisões mais rápidas, o CFO defende a integração entre documentos fiscais, contratos, cadastro de fornecedores, pagamentos e comprovantes. "Quando essas informações estão conectadas e são confiáveis, a empresa consegue agir preventivamente, renegociando prazos, revisando estoques críticos, ajustando projeções de caixa ou reforçando controles antes que a pressão apareça nos resultados financeiros”, completa.
Embora as organizações não possam controlar eventos climáticos, elas podem fortalecer sua capacidade de resposta por meio de processos mais estruturados e dados integrados. "Em períodos de maior volatilidade, eficiência sem controle é insuficiente. Velocidade sem rastreabilidade aumenta o risco, e dados desconectados criam uma falsa sensação de gestão. O alerta pode vir de fora, mas a capacidade de resposta precisa estar dentro da empresa", conclui o executivo.






