O imposto que move o Brasil: análise da Qive identificou R$ 14,2 bilhões em ICMS sobre fretes em dois anos

O imposto que move o Brasil: análise da Qive identificou R$ 14,2 bilhões em ICMS sobre fretes em dois anos

Guilherme Martins, Gerente de Produto e Especialista em Reforma Tributária na Qive. Crédito: Divulgação

  • Setor de varejo lidera no volume de movimentações, com 52,1 milhões de CTes, mas com um dos menores tickets médios, o que contabiliza cerca de R$ 1,5 mil;
  • Com a Reforma, a tributação no destino eliminará a lógica fiscal que hoje justifica algumas rotas longas e CDs estrategicamente posicionados para capturar benefícios fiscais;
  • Ao contrário de outros setores do B2B que adotam longos prazos de financiamento, este opera em um ciclo rápido;

O capítulo ‘Cenário Logístico’ do Panorama do Contas a Pagar, estudo conduzido pela Qive, plataforma líder do contas a pagar, mapeia o cenário logístico B2B brasileiro. De acordo com informações levantadas entre 1º de janeiro de 2024 e 31 de dezembro de 2025, o país movimentou 34,2 trilhões de quilos de mercadorias, gerando R$ 211 bilhões em fretes, o que significa a arrecadação de R$ 14,2 bilhões apenas em ICMS.

O estudo conta com uma base massiva de 194,2 milhões de Conhecimentos de Transporte Eletrônico (CTes) emitidos durante o período, e oferece um raio-x de como o Brasil movimenta suas riquezas, expondo a forte dependência do asfalto, a centralização extrema no Sudeste e as profundas distorções do atual sistema tributário.

Varejo lidera movimentações, mas com ticket médio mais baixo

Os dados expõem um contraste econômico: o setor de Varejo lidera no volume de movimentações, com 52,1 milhões de CTes, mas com um dos menores tickets médios  — cerca de R$ 1,5 mil. Por outro lado, segmentos como Energia e Agronegócio dominam o montante financeiro, protagonizando viagens de longa distância e alto valor, com ticket médio de R$ 11,47 mil e R$ 5,4 mil, respectivamente.

“O varejo é o setor da capilaridade, são muitos fretes pequenos, frequentes, próximos ao consumo. Energia e agronegócio aparecem nos corredores de commodity de longa distância. O que o mapa mostrava por geografia, o setor confirma por economia”, explica Guilherme Martins, Gerente de Produto e Especialista em Reforma Tributária na Qive.

Outra observação do estudo é a forma de pagamento do mercado de fretes. Ao contrário de outros setores do B2B que adotam longos prazos de financiamento, este opera em um ciclo rápido. “O transporte funciona como serviço de giro rápido, com pouca margem para parcelamento, e isso é um ponto crítico de controle para a conferência do documento. Se o frete é pago em dias e de uma vez, o erro que não for capturado no CTe quase não tem janela de correção”, avalia o especialista.

Os dados também confirmam a concentração esperada: o estado de São Paulo é a origem de 56,6% de todos os CTes do país. “Conseguimos avaliar que a malha logística é feita em torno do consumo, com a rota São Paulo a Cajamar, local onde estão a maioria dos galpões logísticos de transportadoras e marketplaces. Por isso, a região lidera isoladamente o volume nacional, com cerca de 6,9 milhões de documentos emitidos. Isso evidencia o poder do ‘anel de distribuição’ metropolitano composto por Cajamar, Guarulhos, Barueri e Sumaré”, complementa Guilherme.

A Reforma Tributária redesenha a logística da distribuição

O levantamento revela um paradoxo no transporte. No regime normal, a alíquota efetiva mediana do ICMS aplicada em rotas estaduais foi de 15,74%, superior aos 11,4% observados nas rotas interestaduais. Com a transição para a Reforma Tributária — que substituirá gradualmente o ICMS pelo IBS e CBS com tributação no destino final da mercadoria — a logística brasileira passará por um redesenho estrutural. 

“Historicamente, muitas empresas posicionaram seus Centros de Distribuição (CDs) para otimizar incentivos fiscais estaduais, assumindo rotas mais longas apenas para pagar menos ICMS. Com a chegada de nova tributação, mover carga dentro do próprio estado custará mais em impostos do que cruzar fronteiras. Por isso, a localização de novos Centros de Distribuição passará a ser uma decisão estritamente logística e operacional, baseada em distância física, qualidade das rodovias e tempo de entrega. A Reforma não cria um movimento novo; ela tende a acelerar o que o mercado já vinha fazendo — aproximar a distribuição do consumo — e a retirar o suporte fiscal que mantinha de pé estruturas distantes do cliente”, finaliza Guilherme.

Sobre a Qive

A Qive, plataforma líder do contas a pagar, integra e automatiza, em um único fluxo conectado ao ERP, a gestão de pagamentos, documentos e fornecedores, oferecendo eficiência, segurança e escalabilidade. Antes Arquivei, foi fundada em 2014 em São Carlos, interior de São Paulo, com a missão de centralizar, organizar e automatizar documentos fiscais. Em 2021, recebeu um aporte de R$ 260 milhões em rodada Série B liderada pela Riverwood Capital. Em 2024, após um rebranding da marca, se tornou Qive e avançou para a área financeira e de pagamentos, com uma solução que garante inteligência analítica para a tomada de decisões e processos seguros, ao eliminar riscos e custos em ambientes complexos. Atualmente, a empresa processa R$ 3 trilhões em notas eletrônicas anualmente e já gerenciou mais de 5,7 bilhões de documentos fiscais nos últimos onze anos. A Qive tem mais de 300 colaboradores no Brasil e atende mais de 220 mil CNPJs no país, entre eles Faber-Castell, Casas Bahia e Kraft Heinz.

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